Seção III

Guerra eletrônica

A guerra eletrônica (EW) é hoje dimensão constante do campo de batalha ucraniano — não um evento, mas um estado ambiental. Este capítulo descreve a doutrina, os efeitos práticos no equipamento do soldado e como reconhecê-los. NÃO contém procedimentos de jamming, interceptação ou emprego ofensivo.

Doutrina EW: ESM, ECM, ECCM

A doutrina OTAN divide a guerra eletrônica em três funções. Compreendê-las é pré-requisito para ler o próprio ambiente operacional.

FunçãoDescrição (nível doutrinário)
ESM (Electronic Support Measures)Escuta passiva — interceptação, classificação, geolocalização de emissões inimigas
ECM (Electronic Countermeasures)Ativo — jamming, spoofing, neutralização de link
ECCM (Electronic Counter-Countermeasures)Proteção — frequency hopping, burst, antenas direcionais, spread spectrum
Implicação prática

Cada soldado em zona EW saturada sofre ECM inimiga e depende do próprio ECCM. Saber qual categoria se enfrenta ajuda a ler a situação.

Sistemas EW russos conhecidos (OSINT)

Os sistemas EW russos são publicamente documentados. Conhecer sua existência e raio aproximado faz parte da cultura do soldado.

SistemaFunção
Shipovnik-AeroEW tático anti-UAV, sobre veículo, dezenas de km
Murmansk-BNEW estratégico HF, centenas/milhares de km, intercept comms longo alcance
Borisoglebsk-2Sistema multibanda terrestre, intercept e jamming de comms tático
Krasukha-2 / Krasukha-4Anti-radar, anti-AWACS, alta potência
Pole-21 / Pole-21MAnti-GPS de área, negação GNSS em zonas amplas
Leer-3EW combinado com drone Orlan-10, intercept GSM celular tático
Awareness, não capacidade

Saber os nomes não significa neutralizá-los. Significa entender que sua experiência EW não é aleatória, é sistêmica.

Efeitos EW reconhecíveis no soldado

EW não é invisível: manifesta-se de modos específicos no equipamento individual. Captar sintomas cedo é mudar comportamento antes que o problema vire tático.

  • Rádio: ruído de fundo constante em banda, perda de recepção em freqs limpas, voz distorcida
  • GPS: posição saltando, deriva constante de centenas de metros, perda total de fix
  • Smartphone: celular sem barras apesar de torres amigas, GPS instável
  • Datalink de drone amigo: vídeo pixelando, perda de controle, fail-safe RTH (return-to-home)
  • Sistemas de countermeasure: detectores alarme contínuo sem fonte identificada
  • Bússola eletrônica: deriva ou flip súbito (interferência intencional ou natural)
GPS spoofing

Caso especial: GPS mostra posição plausível mas falsa. Mais perigoso que jamming porque não gera alarme. Verificar com bússola magnética e referências terrestres.

Efeitos EW amiga

EW amiga protege suas unidades — mas também degrada seus próprios sistemas. Awareness disso evita interpretar efeito defensivo como ataque inimigo.

  • Jammers anti-FPV de equipe: degradam também rádios amigos em bandas sobrepostas
  • Jammers de trincheira (omnidirecionais): criam "bolhas" de silêncio EM local
  • Jammers em veículo: proteção em movimento, mas o veículo é emissor identificável
  • EW amiga estratégica: pode não ser comunicada em detalhe por OPSEC — aceitar a degradação

Comportamento defensivo em ambiente EW

  • Sempre esperar EW — não se surpreender quando chega
  • Ter PACE plan (Primary, Alternate, Contingency, Emergency) para cada meio de comms
  • Manter navegação tradicional (mapa, bússola magnética) como fallback de GPS
  • Conhecer freqs de fallback e pontos físicos de rendezvous
  • Limitar emissões próprias: menos transmite, menos oferece ao SIGINT inimigo
  • Reconhecer sintomas cedo e sinalizar no net ("EW ACTIVE" como callout)
  • Não assumir que o rádio funciona — testar com checks breves no início da op

EW e drones

A relação entre EW e drones é hoje o principal ponto de equilíbrio doutrinário do front. Entendê-la em nível de princípio faz parte do kit do soldado moderno.

  • FPV em 5.8 GHz: vulnerável a jamming comercial, raio do jammer 100-500 m
  • FPV com ELRS ou link cifrado: mais resilientes, exigem EW dedicada
  • Drones em fibra ótica: imunes a EW (cabo físico) — surgiram 2024, expandindo 2025-2026
  • Mavic / Autel comerciais: dependem de GPS — vulneráveis a negação de GPS
  • Loitering munitions (Shahed, Lancet): nav inercial + GPS, parcialmente resilientes
Tendência 2025-2026

Drones em fibra ótica reduziram a eficácia da EW clássica. A resposta é híbrida: hard-kill + EW residual + dispersão física. O soldado precisa assumir que alguns FPVs passarão.

Erros comuns

  • Confiar no GPS sem fallback bússola/mapa
  • Interpretar interferência como defeito do próprio aparelho
  • Aumentar potência de transmissão para "furar" o jamming — expõe mais ao DF
  • Não ter PACE plan documentado em nível de equipe
  • Ignorar detector EW porque "sempre toca" — o dia em que muda importa
  • Achar que cifragem = invisibilidade (cifragem protege conteúdo, não emissão)

Lições aprendidas Ucrânia

O front ucraniano é o ambiente EW mais denso da história operacional moderna. Publicamente, sistemas como Shipovnik-Aero, Murmansk-BN, Borisoglebsk-2 e Krasukha estão em emprego rotativo ao longo de toda a linha. Taticamente, cada equipe avançada vive com GPS instável, rádios degradados, dependência de link em fibra e drone-killer. A experiência compartilhada: vitória tática não vai para as unidades tecnologicamente superiores, mas para as que integraram a degradação como estado normal e se treinaram para operar nele. Mapa topográfico e bússola magnética voltaram de relíquia a equipamento de sobrevivência.